quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Nunca Seduzas um Escocês, de Maya Banks - Opinião



Nunca Seduzas um Escocês, de Maya Banks 
Saída de Emergência


Eveline Armstrong é amada e protegida ferozmente pelo seu poderoso clã, mas é considerada "demente" por quem não pertence ao seu meio. Bonita, sobrenatural, com um olhar intenso, ela nunca falou. Ninguém, nem mesmo a sua família, sabe que ela não ouve. Eveline aprendeu sozinha a ler lábios e, feliz por viver com a sua família, nunca se importou que o mundo a visse como louca. Contudo, quando um casamento arranjado com um clã rival torna Graeme Montgomery seu marido, ela aceita cumprir o seu dever - sem estar preparada para os prazeres que se avizinhavam. Graeme é um guerreiro robusto com uma voz tão grave e poderosa que ela consegue ouvi-la, e umas mãos e beijos tão ternos e habilidosos que despertam as paixões mais profundas em Eveline. Graeme está intrigado com a sua noiva, cujos lábios silenciosos são como um fruto maduro de tentação e cujos olhos vivos e sagazes conseguem ver a sua alma. Assim que a intimidade entre ambos se aprofunda, ele descobre o segredo dela. E quando a rivalidade entre clãs ameaça a mulher que ele começara a apreciar, o guerreiro escocês moverá céu e terra para a salvar. Eveline despertou o seu coração para a melodia encantadora de um amor raro e mágico.

Na praia há que ler livrinhos leves. Que cheirem a romance, com leitura fácil e que não obrigue a puxar muito pelos neurónios. Na busca de um livrinho assim este Nunca Seduzas um Escocês caiu-me no colo.
Escrita simples, personagens pouco complexas. Leve como se queria. Uma história “bonitinha”. Sim, apenas “bonitinha”. Falta-lhe uma elaboração maior das personagens. A história parece que se passa em duas semanas tal a cadência rápida dos acontecimentos.
Eveline é, sem dúvida, uma personagem interessante. Devido à sua história, ao segredo que carrega. Mas é tudo tão rápido. Mudanças de opiniões, paixões…
Pensei que me encantaria com as paisagens escocesas, mas essas são quase inexistentes. E até agora ainda não consegui descobrir bem qual a explicação do título. Não consigo fazer um paralelismo convincente entre o título e a história.
Uma leitura leve, morna, boa realmente para os dias de praia entre um mergulho e outro.
E mais nada que isso….

terça-feira, 27 de junho de 2017

A Prenda, de Cecelia Ahern - Opinião

A Prenda, de Cecelia Ahern
Presença

Todos os dias Lou Suffern, um arquitecto bem-sucedido de Dublin, travava uma batalha inglória com o relógio, na tentativa vã de responder às múltiplas solicitações profissionais, familiares e sociais. Vivia a um ritmo vertiginoso. O seu desejo de sucesso afastou-o do que era realmente importante na sua vida. E assim foram correndo os dias até àquela gelada manhã de terça-feira em que resolveu oferecer um café a Gabe, o sem-abrigo que costumava sentar-se perto da entrada do seu escritório. À medida que o Natal se aproxima e que Lou vai privando mais de perto com Gabe, a sua perspectiva do tempo vai-se alterando... Emocionante e divertida, esta narrativa onde está sempre presente o espírito de Natal, faz-nos reflectir sobre a importância do tempo e rever as prioridades na nossa própria vida.


Há uns quantos anos uma professora de literatura portuguesa disse-me que não éramos nós que escolhíamos os livros. Eles escolhiam-nos na altura certa. Podíamos até tentar ler um livro qualquer, mas se não fosse a altura certa de o ler não faria qualquer sentido para nós. Acabaríamos por desistir da sua leitura. E, na altura certa, voltaria a nós e aí sim, faria luz dentro de nós.
Aconteceu-me algumas vezes na vida. Livros que tentei ler e que não conseguia e que anos depois se revelavam uma leitura incapaz de se largar.
Esta Prenda foi algo parecido. Está na minha estante há perto de 5 ou mais anos. Emprestado por uma boa amiga. Mas não sei porquê, mesmo sendo de uma escritora que adoro, nunca era o escolhido. Foi ficando ao longo dos anos para o fim.
Até que chegou a sua vez…. E na altura certa…
A autora apresenta-nos duas histórias, uma dentro da outra. Passa-se no natal. Um jovem acabou de atirar um peru congelado à janela de uma casa de família. Foi preso. E enquanto espera pela mãe, um polícia resolve contar-lhe uma história que lhes aconteceu e que tem a certeza ninguém vai acreditar.
Somos apresentados a Lou Suffern, um arquitecto que vive para o trabalho. Tudo para ele funciona à volta do trabalho. O trabalho é a coisa mais importante da sua vida. É conhecido como o homem que está sempre lá, que se desdobra em todas as reuniões. Um ritmo vertiginoso. Mas apenas no trabalho… A família mal conhece Lou. Não passa tempo com os filhos. O mais novo mal o conhece. A mulher começa a desistir dele. Não é o homem com quem casou.
Mas Lou não se apercebe disso. Para ele a família só tem que agradecer o esforço que ele faz. É esse esforço que lhes permite ter uma boa casa, ter tudo o que precisam.
Um dia Lou repara num sem-abrigo à porta de um prédio. E sem saber bem porquê oferece-lhe um café e conversa com ele.
A partir daí Gabe é uma presença diária na vida de Lou. Ninguém sabe bem quem ele é, ou o que quer. Mas aos poucos, e à medida que se aproxima o Natal, Gabe vai tentando fazer ver a Lou que a família é o mais importante. Que o tempo não se pode comprar. Tem de ser vivido. E vivido com quem amamos.
Será que tem sucesso?
Confesso que não esperava o final. Apesar de perceber que Gabe não era uma pessoa qualquer e tinha um intuito, não esperava que terminasse assim. Confesso que teria gostado mais de outro final. Mas talvez o impacto não seria o mesmo no leitor. Talvez esse mesmo final seja o que faz compreender a “lição de vida” que este livro traz consigo.
Não decepciona quem já está habituado à escrita desta autora. É um bom livro. Cativa. As personagens são bem construídas e interessantes.
Claro que recomendo. Mas talvez não no Natal. Mas acho que se o quiserem ler o irão fazer na altura certa…
Deixo aqui um excerto do final do livro que, sem trazer nenhum spoiler, mostra um pouco da lição de vida que ensina.

“Uma coisa de grande importância pode afectar um pequeno número de pessoas. Do mesmo modo, uma coisa de pouca importância pode afectar um grande número de pessoas. Seja qual for o caso, um acontecimento – seja ele grande ou pequeno, pode afectar toda uma cadeia de pessoas. Os acasos podem unir-nos a todos. É que, não sei se estão a ver, mas somos todos feitos da mesma matéria. Quando alguma coisa acontece, desperta algo dentro de nós que nos liga a uma situação, que nos liga a outras pessoas, iluminando-nos e unindo-nos como uma fiada de luzinhas numa árvore de natal, torcidas e contorcidas mas, ainda assim, ligadas a um mesmo fio condutor. Algumas apagam-se, outras tremeluzem, outras brilham intensamente, mas estamos todos no mesmo fio.
(…)Uma lição de vida encontra o denominador comum e une-nos a todos, como elos de uma corrente. Na extremidade dessa corrente, está pendurado um relógio, e o mostrador desse relógio regista a passagem do tempo. Nós ouvimo-lo – esse som de tiquetaquear abafado que quebra qualquer silêncio – e vemo-lo, mas muitas vezes não o sentimos. Cada segundo que passa deixa a sua marca na vida de cada pessoa, e depois avança silenciosamente, desaparecendo discretamente sem fazer alarido, evaporando-se no ar como o vapor que se escapa de um pudim de natal acabadinho de sair do forno. Muitas vezes reconforta-nos e, quando o nosso tempo acaba, também nos deixa frios. O tempo é mais precioso que o ouro, mais precioso que os diamantes, mais precioso que o petróleo ou que quaisquer outros tesouros valiosos. É um tempo que não nos chega, é o tempo que provoca as guerras nos nossos corações, e por isso temos de o gastar com sensatez.
O tempo não pode ser embrulhado e decorado com fitas e deixado debaixo das árvores para a manhã de natal.

O tempo não pode ser dado. Mas pode ser partilhado.”

quarta-feira, 22 de março de 2017

A Terra de Ana, de Jostein Gaarder - Opinião



A Terra de Ana, de Jostein Gaarder
Uma história sobre o clima e o meio ambiente

O que farias se recebesses uma visão do futuro?

Depois de receber um presente misterioso no seu décimo sexto aniversário, sempre que adormece, Ana é transportada da sua cabana idílica nas montanhas da Noruega para o mundo desolado da sua bisneta Nova, em 2082. As plantas e animais praticamente desapareceram e Ana percebe que tem de fazer algo para evitar este futuro apocalíptico. Com a ajuda do seu psiquiatra e, mais importante, de Nova, Ana tentará enfrentar os problemas climáticos que assolam a Terra. Mas irá a tempo?

Tenho dois escritores favoritos. Considero favoritos aqueles que sigo sempre o que publicam e que de certa maneira a sua escrita mudou algo da minha vida: Marion Zimmer Bradley e Jostein Gaarder.
A Marion é fácil de explicar pelo seu mundo criativo e pela publicidade que tem. Jostein Gaarder, no entanto, não é um escritor tão conhecido e badalado.
Conheci-o através de O Mundo de Sofia, como qualquer adolescente. Utilizei-o, inclusive, para estudar sociologia. No entanto, o seu mundo e as suas ideias conquistaram-me com O Enigma e o Espelho.
Jostein Gaarder tem um modo de escrita muito próprio e uma linha de pensamento em quase todos os seus livros. Por exemplo, em O Mundo de Sofia, a personagem principal Sofia lê sobre a vida de Hilde, que não sabe que é uma simples personagem de livro, quando a própria Sofia é uma personagem do livro que nós próprios lemos. Já em O Mistério de Natal, algo parecido acontece ao ler-se nos quadradinhos do calendário uma história fantasiosa mas com contornos cada vez mais reais misturados com a verdadeira história de uma menina que desapareceu de um centro comercial. Podem ler aqui.
O que eu quero dizer é que Jostein Gaarder, graças também ao seu percurso relacionado com a filosofia, remete-nos sempre para mundos dentro de outros mundos, realidades paralelas que nos fazem questionar muita coisa.
E neste novo livro A Terra de Ana não desilude. Ana é uma jovem prestes a fazer 16 anos. Uma jovem com uma preocupação enorme pelo meio ambiente, pelos animais e pela forma como o ser humano está a acabar com o ecossistema.
Mas numa noite Ana tem um sonho estranhíssimo. Onde já não é Ana e sim Nova. O seu quarto tem uma cor diferente, o mundo à volta é diferente. Já não há praticamente nenhuns animais, os povos tiveram de ir para norte para fugir à seca e aos desertos. O mundo está a morrer. Mas Ana, que nesse sonho é Nova, vê outra pessoa no sonho, a bisavó de Nova. A velha senhora tem um anel igual ao que Ana recebeu pelos seus 16 anos. A velha senhora chama-se Ana. A velha senhora é ela…
Então como pode Ana sonhar com duas pessoas e ser ao mesmo tempo as duas?
E, mais importante, terá sido um simples sonho?
Numa viagem pelo ecossistema, pela urgência de salvar o nosso planeta, de deixar um legado aos nossos descendentes, acompanhamos Ana a tentar encontrar um sentido para o que sonhou (ou viu) enquanto tenta salvar o mundo.
Confuso? Talvez…
Com este livro aprendi bastante sobre os ecossistemas. E é, sem dúvida, um alerta para o que estamos a fazer ao nosso planeta. Estamos a gastar mais do que conseguimos ter. E a continuar assim o mundo de Nova não será apenas um sonho e sim uma realidade. Jostein Gaarder consegue arrebatar-nos nesta luta pelo ambiente sem ser demasiado extremista. Afinal estamos a ser guiados pela inocência de uma rapariga de 16 anos. Mas as perguntas que faz, os problemas que levanta, não deixam de ser pertinentes. Não deixam de ser um alerta para as nossas próprias acções.
E a “magia” da escrita de Gaarder está lá ao criar um mundo paralelo e futurista, onde Ana é a própria bisneta que tem uma nova oportunidade de salvar o planeta.
Será, sem dúvida, um livro a que terei de voltar. Com mais calma e mais tempo. Com a cabeça mais leve e livre.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O Aroma das Especiarias, de Joanne Harris – Opinião

O Aroma das Especiarias, de Joanne Harris

Vianne Rocher recebe uma estranha carta. A mão do destino parece estar a empurrá-la de volta a Lansquenet-sur-Tannes, a aldeia de Chocolate, onde decidira nunca mais voltar. Passaram já 8 anos mas as memórias da sua mágica chocolataria La Céleste Praline são ainda intensas. 
A viver tranquilamente em Paris com o seu grande amor, Roux, e as duas filhas, Vianne quebra a promessa que fizera a si própria e decide visitar a aldeia no Sul de França. À primeira vista, tudo parece igual. As ruas de calçada, as pequenas lojas e casinhas pitorescas… Mas Vianne pressente que algo se agita por detrás daquela aparente serenidade. O ar está impregnado dos aromas exóticos das especiarias e do chá de menta.
Mulheres vestidas de negro passam fugazes nas vielas. Os ventos do Ramadão trouxeram consigo uma comunidade muçulmana e, com ela, a tão temida mudança. Mas é com a chegada de uma misteriosa mulher, velada e acompanhada pela filha, que as tensões no seio da pequena comunidade aumentam. E Vianne percebe que a sua estadia não vai ser tão curta quanto pensava. A sua magia é mais necessária do que nunca!

Joanne Harris é uma autora à qual gosto sempre de voltar. Apaixonei-me por ela no Chocolate (acho que quase todos se apaixonaram) e continuo por todos os seus outros livros.
Quando saiu o Sapatos de Rebuçado, uma continuação do Chocolate, tive um pouco de receio. Um livro tão doce e místico poderia ver a sua história ruir com o erro de uma continuação. Sapatos de Rebuçado não decepcionou.
Não tendo uma história tão apaixonante conseguiu, no entanto, manter a magia de Vianne.
Surgiu então O Aroma das Especiarias. Outra continuação. Novo receio.
É sempre bom voltar a personagens que nos apaixonam. E Vianne, para mim, é sempre uma personagem bem vinda e à qual me habituei. Mas o receio de ver estas personagens adulteradas da história inicial está sempre presente.
Vianne volta a Lansquenet-sur-Tannes após receber uma carta da falecida Armande. Lansquenet precisa de ajuda. Alguém precisa da ajuda de Vianne. Mas quem?
Chegamos a uma vila em polvorosa. Reynaud está desacreditado junto da população desde o incêndio na antiga chocolateria, que se tornara uma escola para meninas muçulmanas.
A vila está dividida. De um lado os antigos habitantes que Vianne já conhece, do outro as famílias muçulmanas que habitam Les Marauds.
Vianne reencontra velhos amigos ao mesmo tempo que é apanhada em plena “guerra”. Reynaud, o pére, que sempre a tentou expulsar da vila, precisa agora da ajuda dela. Por outro lado Inés, a muçulmana de que todos falam, resiste à sua magia tornando-a cada vez mais misteriosa.
É bom redescobrir um novo Reynaud, uma nova faceta. E ver a sua personalidade evoluir durante a história.
Por sua vez Inés é uma personagem intrigante que leva o leitor a uma bipolaridade de sentimentos: temos pena dela, depois já não tanto e depois…. Deixo-vos descobrir…
Pelo meio a própria Vianne e as filhas, os seus sentimentos e os ventos da mudança.
Numa altura em que Trump, o Islão e os refugiados são o tema principal, O Aroma das Especiarias é um livro que nos faz pensar neste choque de culturas. Faz-nos conhecer um pouco mais a cultura muçulmana e perceber como pequenos mal entendidos podem originar guerras, derivadas do medo do desconhecido, do diferente, da falta de compreensão.
Foi bom voltar a Lansquenet. Foi bom voltar à companhia de Vianne.

Recomendo vivamente o livro e só tenho pena que a falta de tempo, e a vida, não me tenha permitido ler o livro muito mais rapidamente.